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Enquanto isso, em algum lugar do mundo…

Enquanto isso, em algum lugar do mundo…

Enquanto isso, em algum lugar do mundo…

Fernando, 19 anos, filho de Dr. Miguel Prado e D. Maria Joana Prado, morava na Barra da Tijuca. Sempre teve tudo o que quis, quase nunca ouviu um não como resposta. Filho único, sempre foi mimado pelos pais. Aos 14 anos ganhou um carro no valor de R$ 200.000,00, valor ínfimo para uma família cuja renda anual era de 15 milhões de reais. Dr. Miguel, além de médico, tinha um negócio de cerâmica herdado da família. D. Maria era dona de casa, e em seu tempo livre, gostava de pintar telas, fazer artesanatos e ler romances franceses.

Fernando já foi expulso de 3 escolas por mau comportamento, mas os pais sempre o defendiam e a cada expulsão, colocavam-no em uma escola ainda mais cara. Em certa ocasião, chegou a agredir o pai, pois queria um brinquedo e o pai havia resistido por um tempo.

Os pais já foram envolvidos em fraudes de cheques, multas de trânsitos, mas como tinham dinheiro, tudo era resolvido rapidamente e sem escândalos. Além disso, o relacionamento dos dois não era exemplo para o filho: todos os dias agrediam-se verbalmente e, em certas ocasiões, fisicamente. Dr. Miguel sempre teve problemas com o álcool.

Severina de Jesus, que morava em Teresópolis, mãe solteira de um menino de 6 anos, tinha uma renda mensal de R$ 800,00, e ainda pagava aluguel. Seu filho estudava em escola pública. Certo dia, foi expulso por um mal entendido: acusado de ter roubado uma carteira sem tê-lo feito. Foi então transferido para uma escola que ficava a 3 Km de onde morava. O menino, Gustavo, fazia o trajeto a pé para ir e para voltar.

A vida de Severina e de Gustavo sempre foi de ausências: ausência do pai de Gustavo que sumiu no mundo e nunca mais deu notícias; ausência de oportunidades, visto que Severina nem havia concluído o Ensino Médio.

Mas, voltando ao garoto da Barra, aos 17 anos fez um pedido inusitado aos pais: queria ir morar sozinho em uma de suas mansões. Desejo que prontamente foi atendido pelos pais. Nessa mansão, ele chamava seus amigos e dava festas caras com bebidas e drogas em excesso.

Foi numa noite de 13 de agosto que a vida de Fernando e a de Gustavo se aproximaram pela tragédia. Fernando, depois de mais de uma de suas festas, pegou seu carro e quis dar uma voltinha com seus colegas a fim de comprar mais bebidas. Seguia por uma estrada de mão dupla, sem iluminação, com irregularidades e cheia de curvas. Ia a 120Km por hora numa pista cuja velocidade máxima permitida era de 60Km, mas para ele nada tinha limites. Gustavo caminhava pela beira da pista, não havia acostamento, e no momento em que caminhava por uma curva, sentiu apenas as luzes do farol, o barulho da freada, depois não sentiu mais nada.

Na delegacia, Fernando, ou melhor, seus pais pagaram uma alta fiança. Por enquanto, o garoto aguarda juízo em liberdade, mas de quantias em quantias o julgamento vai sendo adiado… Enquanto isso, Severina de Jesus chora todos os dias a morte do filho.

Ana Cláudia Alves de Souza

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